
CT do Atlético do Paraná
COMENTÁRIOS LIBERADOS A PARTIR DE HOJE
Todo aquele que acompanha programas esportivos está cansado de ouvir aquele discurso: “O futebol do Rio de Janeiro não tem estrutura, e por isso não disputa título brasileiro pra valer há tanto tempo”. A opinião geral é a de que, sim, se pensar no campeonato brasileiro, a diferença no rendimento entre as equipes estruturadas e as amadoras será mais evidente. Com isso eu concordo. Mas será que o problema é apenas o mal funcionamento do futebol do Rio de Janeiro? “Estrutura” é a palavra-chave?
O São Paulo Futebol Clube é um dos maiores clubes do Brasil, se não for o maior, e também da América Latina. É o mais vitorioso do país, um dos mais respeitados e visados do mundo; É inclusive um modelo quando se abre esse tipo de discussão. Tem um CT (centro de treinamento) que é referência, ganha dinheiro com compra e venda de jogadores, paga em dia, dá “bicho” (dinheiro à mais, à parte) quando chega com chances à reta final das competições que disputa, possui estádio próprio e um grande número de sócios e torcedores. O Internacional de Porto Alegre é mais do que uma referência neste último quesito: São mais de 100 mil contribuintes, e o valor mínimo, segundo o site oficial, é de 20 reais/mês. Se pensar apenas no mensal (porque no primeiro mês o sócio deve pagar mais 20 reais por despesa de confecção e envio do cartão de sócio), todo mês o Internacional lida com pelo menos 2 milhões de reais. São números excelentes, lembrando que certamente esse faturamento não é líquido por conta dos benefícios dados aos sócios, como a rede de descontos em estabelecimentos de compra e afins.
Bom, até aqui eu estou falando não só de dinheiro, como pode perceber, mas de bens. Torcedor, renda no estádio próprio, dinheiro em caixa e um time disputando títulos são coisas importantes, “suponho”.
O Atlético Paranaense tem o que dizem ser “o maior e melhor CT do Brasil”. Sabidamente não é um clube de ficar atrasando salários, mas o que o Atlético tem disputado de títulos?
O próprio Internacional, como clube enorme que é, o último campeão do mundo em nosso país, não tem disputado mais nada de importante após a campanha de 2006. Sulamericana é torneio que, se você não ganha de forma mágica e absurdamente épica (como o Vasco venceu o Palmeiras com um a menos, em pleno Palestra Itália, em 2000, e virou de 3×0 para 4×3 em um só tempo de jogo), não vale de muito mais do que poucos milhões de dólares – Ou seja, comparado ao valor de um título de libertadores e da visibilidade atingida por este tipo de conquista, não vale de praticamente nada. E estrutura aos colorados é o que não falta. A campanha do Internacional é muito boa no Brasileirão, mas a regularidade é algo que passa longe dos portões do Beira-Rio. E regularidade é chave em um campeonato de pontos corridos.
Por essas coisas, me faço questionar sobre certas verdades “supostas” pelos cronistas esportivos. Eu, Slip, acredito em camisa, por exemplo. Eu acho que um adversário jogará no Morumbi contra o Tricolor Paulista e vai tremer, qualquer que seja a situação. O motivo é simples: a camisa é vencedora e conhecida, há mais holofotes quando o assunto é São Paulo do que quando o assunto é inclusive o Santos, que é o time do Pelé e que há poucos anos revelava Robinho e era campeão brasileiro, mas que possui uma estrutura um pouco melhor do que a média.
E o que dizer do Grêmio, que apesar de ter um bom patrimônio (menos que os vermelhos do Sul, no geral), tem uma torcida que empurra e lota o Olímpico em quase todo domingo? Pois o tricolor gaúcho esteve outro dia na final da Libertadores após ressurgir da série B (Riquelme arregaçou, mas enfim) e tem revelado inúmeros jogadores da mais alta casta do futebol mundial, como Ronaldinho Gaúcho e Anderson (hoje, respectivamente, no Milan e no Manchester United).
Irônico é o que se percebe: Os mesmos cronistas acreditam muito mais no Grêmio para a disputa do Brasileirão, em um clube de estrutura talvez inferior mas de camisa tão grande quanto a do arquirrival do Sul, do que no Internacional. E na hora H, o Grêmio vai forte, mesmo que não vença. Camisa é tudo o que não falta aos tricolores dos pampas.
É claro que é fácil dizer, “Ah, não dá pra tomar nada no futebol como regra”. Essa generalização (ou frase anti-generalização, melhor dizendo) é algo simples de ser feito. Mas eu não entendo bem o porquê de só falarem em estrutura no futebol carioca, quando outras coisas são evidentemente parte integrante da realidade triste do Rio de Janeiro. Por que não se fala da mudança de mentalidade necessária, nos torcedores cariocas, para que não se vaie o jogador que erra uma jogada à torto e à direito, sem o menor critério? Pois pouco importa se é parecido em outros lugares, o fato é que isso só atrapalha. Por que não se critica a falta de humildade do jogador que chega ao Rio de Janeiro que só quer visibilidade para partir então para outros centros, como a Alemanha e o mundo árabe? E isso quando ambos, na minha modesta opinião, são centros futebolisticamente muito inferiores ao Brasil, ao Rio de Janeiro e a qualquer parte do país… Fala sério, né?
Muita coisa é mais importante do que apenas a estrutura. A estrutura é só um dos pilares que dá camisa a um clube. O comportamento da torcida, o número de sócios, a mentalidade do clube e o comprometimento e qualidade do elenco são coisas que interferem diretamente.
Já a estrutura, eu acho que influencia e só. No fim das contas, trata-se de apenas futebol: 11 x 11, nas quatro linhas, disputando quem faz mais gols. O detalhe a que todos os que zelam pelo bom futebol, seja analisando-o como eu, seja praticando como qualquer jogador ou seja indo aos estádios e ajudando a lotá-los, devem ficar atentos, é que enquanto o Rio de Janeiro permanece em declínio em tantas coisas e inclusive no esporte bretão, outros centros se desenvolveram e o monopólio paulista é cada vez mais poderoso e difícil de ser combatido.
Porque outro dia Flamengo e Fluminense estavam entre os 4 primeiros do Brasileirão. E que diabos de estrutura esses dois times têm?
Fica o raciocínio.